sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Geração Coca-Cola

Às vezes me sinto meio frustrado, quando ligo a televisão, leio os jornais ou olho pela janela, uma sensação amarga de culpa me consome ao ver o mundo que eu ajudei a construir desmoronando a olhos vistos derrubado pela minha própria omissão.
Omisso sim, pois quem não peca por dolo o faz por omissão, mas um fato é verdadeiro, não pequei sozinho. Sou de uma geração inteira de pecadores, os nascidos na década de setenta, período de repressão onde enquanto meus pais viviam as torturas do regime eu nascia.
Quando comecei a me entender por gente já era a abertura, a morte de Tancredo Neves, a vitória das "Diretas já" e pouco tempo depois, estava eu cantando com Renato Russo, "Somos os filhos da Revolução, somos Burgueses sem religião, somos o futuro da nação...", e até hoje me pergunto onde foi essa tal revolução, e pior ainda, que futuro represento eu pra essa nação.
Hoje mais ou menos trinta anos após meu nascimento colho os cacos, desconheço uma geração tão ignorante quanto a minha, sem ideologias, sem coragem, olhando o mundo na beira do abismo e sem peito sequer pra gritar avisando que ele está caindo.
Vivemos nossa adolescência como se tudo já tivesse sido conquistado, nossa meta era crescer, arranjar um emprego e virar "classe média" ou até se déssemos sorte, ficaríamos ricos. Ouvimos Cazuza cantar "ideologia, eu quero uma pra viver..." e não nos demos conta do quanto faria falta fazer uma escolha de direção, um engajamento, uma ideologia de vida.
Permitimos que as nossas instituições democráticas fossem pilhadas e infectadas por todo tipo de podridão, nossa mídia serve aos interesses de outrem que não os nossos e fomos nós que permitimos que ela crescesse assim.
Boa parte de nossa soberania juntamente com nossas estatais e nosso modus vivendi, foi vendida durante nossa geração com a nossa anuência, mas o pior estrago e talvez o mais difícil de se reverter foi o mal que nossa geração causou à família.
A célula da sociedade foi destruída enquanto dormíamos e por nós mesmos, primeiro quando permitimos que nossos filhos fossem criados em parte pela televisão, segundo por termos criado um mundo onde pai e mãe precisam se abster do convívio em família para que se pudesse ter um mínimo de qualidade de vida ou simplesmente para ter o que comer, necessidade básica de qualquer ser humano.
As jovens de 12 anos grávidas, os jovens de 15 anos envolvidos com o tráfico, o fato de não serem nossos filho não nos abstém de culpabilidade, este é o mundo que construímos, guiado pela engenharia do marketing que nos convence de que precisamos ser quem não somos e ter o que não precisamos, tudo em nome do lucro, nunca na busca de um bem maior, o amor e a paz nunca foram metas da nossa geração, apenas o dinheiro e a ascensão e não importou a que custo.
Hoje lamentamos a corrupção e o lamaçal que tomou conta da nossa política, procuramos opções e não as encontramos, buscamos um referencial sem entender que ele não surge do nada. Não enxergamos alguém com valores que não conseguimos encontrar em nós mesmos e jamais encontraremos, se não buscarmos uma mudança estrutural e continuarmos não entendendo enfim, que na verdade ainda não contribuímos em nada pra esta melhora que tanto buscamos.
Tomar uma postura, um lado, uma posição, expressar-se com sinceridade, debater e buscar o embate, é isso que pra começar nossa geração tem que aprender a fazer, por muitos anos apenas soubemos ser parte do problema, agora temos que buscar ser parte da solução.
Nesse contexto sou contra o voto nulo, pois em meu entender, este apenas representa mais uma ferramenta de omissão, nos poupa da responsabilidade de organização, escolha e enfraquece mais ainda as já convalidas instituições democráticas.
O papel de quem procura a mudança não é se esconder, é mostrar a cara, optar por um lado, ter um ideal ou simplesmente fazer uma escolha. Nossa energia potencial tem de vencer a inércia do comodismo, não se pode votar nulo para sempre, a anulação de uma eleição não significa que jamais haverá outra e de qualquer forma sempre serão os nossos representantes e cabe a nós escolhê-los.
A mudança de postura começa ao se fazer uma opção, pergunto novamente então, como o fez Frei Caneca ao ser executado em 1825, ao expressar-se com a bela e triste frase: "Para quando estarão se guardando os jovens deste País?".

- por Wiliam Nogueira

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